Projeto desenvolvido na Escola mostra que esse espaço pode ser sim,
um espaço de construção de cidadania.
Alunos do 7º ano do Ensino
Fundamental em almoço com
as meninas do Lar Bom Abrigo,
no dia 29.06.2005.
Marli Gaspar, coordenadora
do Lar
Bom Abrigo
Adão Caron Cambraia, professor
Idealizador do projeto "Cidadania.net"
Selo de Escola Solidária recebido
pela EFA atraves do projeto
no ano de 2005
Selo de Escola Solidária recebido
pela EFA através do projeto
no ano de 2003
Fome. Miséria. Abandono. Alguns problemas sociais difíceis de acabar, porque a intervenção do Estado é insuficiente. Então, na busca de soluções imediatas, surge o trabalho voluntário.
O voluntariado tem sido um dos assuntos centrais de diversas discussões, realizadas nos mais diferentes espaços: instituições de ensino, instituições religiosas, assembléias governamentais... Isso porque cada vez mais intensamente a nossa sociedade se constrói em cima de diferenças de todos os gêneros, fazendo surgir assim, como um gritante e famoso problema, a desigualdade social.
Pessoas preocupadas com tais questões, ao buscar soluções, acabam optando, muitas vezes, pelo trabalho voluntário, exercício que busca justamente acabar, ou pelo menos, amenizar os problemas existentes na sociedade. Trabalho voluntário consiste em ações que sejam capazes de proporcionar dignidade às pessoas que enfrentam dificuldades , sem exigir nenhum retorno financeiro. Isso faz com que o trabalho seja, realmente, um ato movido pela preocupação e solidariedade com os demais indivíduos.
Foi pensando em consolidar uma ação que desse ênfase à proposta da escola que, em 2001, iniciou-se o projeto "Cidadania.net", na Escola de Educação Básica Francisco de Assis, desenvolvido pelas turmas de 7º ano do Ensino Fundamental, no componente curricular de Informática. O objetivo central, no início, ao menos, não era ser exatamente um projeto de voluntariado, mas sim uma mobilização dos alunos para construir ou reorganizar os sites das instituições que fossem escolhidas por cada turma, uma vez que se acreditava ser necessário facilitar o contato entre a comunidade e as mesmas. "Na verdade, aconteceu que os alunos passaram a ir até as instituições e o projeto ganhou novas dimensões, abarcando outros valores trabalhados na escola" diz Adão Caron Cambraia, 32 anos, professor idealizador do projeto.
Para construírem os sites, os alunos da 7ª série do ano de 2001, foram conhecer as instituições. Vanessa Hauser, uma das alunas daquela turma, hoje com 17 anos e concluindo o 3º ano do Ensino Médio na EFA afirma "Eu lembro que o que mais me marcou foi o contato com as crianças. A gente foi até o Lar da Criança Henrique Liebiech e tínhamos muitas idéias. Algumas, talvez por ser o primeiro ano do projeto, não foram postas em prática, mas foram realizados alguns eventos para arrecadar alimentos e outros materiais para doação." Vanessa avalia a iniciativa da escola como um projeto "muito interessante, pois os alunos entram em contato com uma realidade diferente e ficam mais conscientes sobre a real situação do lugar onde vivemos".
Nesses cinco anos do projeto, houve diversas mudanças: outros professores passaram a fazer parte dele, cada um com seu componente curricular e foram feitas muitas atividades em diferentes instituições. O "Cidadania.net" engajou-se também ao projeto "Tribos nas Trilhas da Cidadania", da Organização Não Governamental "Parceiros Voluntários", no ano de 2003 (ano de surgimento deste projeto), que tem como objetivo organizar o trabalho voluntário dentro das escolas no estado do Rio Grande do Sul. A cada ano ocorre o "Encontro das Tribos", em Porto Alegre, com o objetivo de reunir os jovens voluntários das escolas participantes, a fim de trocar experiências sobre as atividades realizadas por cada grupo, além de promover a integração entre os alunos.
A professora de Informática Liane Schmidt de Pauli, 40 anos, que acompanha as turmas de 7º ano nas ações solidárias há três anos, ressalta que "com o passar do tempo, mudamos o objetivo do projeto, em função de que entendemos que o simples olhar para essas pessoas que precisam dos outros pode valer muito mais do que dar. Houve dificuldades em envolver os alunos no início, pois a primeira reação sempre é de repúdio, de olhar com olhos estranhos para aquilo que é diferente ao que estamos acostumados. Contudo, é impressionante a crescente aceitação dos alunos. A cada ano as turmas têm se envolvido mais."
Os trabalhos desenvolvidos até este ano envolveram a Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) de Ijuí e de Panambi, o Instituto de Menores de Ijuí (IMI), o Lar da Criança Henrique Liebiech e o Lar da Menina (Lar Bom Abrigo). Foram feitas atividades como doação de materiais (livros, material de higiene, brinquedos...), pinturas, almoços, lanches e momentos de brincadeiras. Um exemplo foi o almoço de integração realizado no Lar Bom Abrigo no dia 29 de junho deste ano, quando os alunos puderam realizar jogos com as meninas que vivem no Lar, além de apresentações feitas por alguns alunos do 7º ano que formam uma banda musical.
A coordenadora do Lar Bom Abrigo, Marli Gaspar, diz que "as crianças gostam de ter contato com outras pessoas, porque no dia-a-dia isso quase não acontece. É importante que existam projetos assim, para estabelecer a interação necessária para qualquer ser humano. Diversas atividades da nossa instituição são feitas por voluntários, temos motorista, costureiras, uma pessoa que cuida da horta. Porém, no contexto em que o Lar trabalha, buscando a inclusão social de forma que torne possível encaminhar essas meninas para uma vida digna, para que elas se constituam verdadeiras cidadãs, esse trabalho de integração e de doação de afeto desenvolvido por esses alunos, é muito importante".
Vale destacar que, durante o desenvolvimento do projeto, procura-se integrar os alunos com as pessoas das instituições e ambas as partes (tanto quem ajudou, quanto quem foi ajudado) são beneficiadas. A professora Liane ressalta que "os alunos passam a valorizar mais aquilo que têm, tanto em termos de bens materiais, como também em relação ao afeto".
Adão e Liane, os dois professores de Informática que acompanham o projeto, afirmam que "os resultados, em termos de melhoria na conscientização dos alunos, não são imediatos, é um processo que pode demorar, já que depende da sensibilização de cada um para com a realidade vista, mas vale a pena. A cada ano é possível perceber maior empenho e uma solidariedade com outras realidades, maior respeito às diferenças e, nesse sentido, a percepção de que, apesar de tudo, todos são seres humanos, com os mesmos direitos e deveres. Essa é uma conclusão que só foi possível através da integração, que é o nosso principal ganho, pois foi um aspecto positivo tanto para as crianças das instituições, quanto para os alunos envolvidos".
Hoje, no 5º ano de desenvolvimento do projeto, é pensamento corrente entre os alunos do 7º ano que "a idéia da Escola ao criar o 'Cidadania' foi muito boa. Podemos mostrar que somos solidários, sentimo-nos mais responsáveis e autônomos e percebemos que as mudanças ao nosso redor dependem da nossa vontade. Os professores sempre falam da importância da inclusão social e com esse projeto é possível sabermos como se pratica inclusão social".
Sobre o que pode ser melhorado, a professora afirma que "realizar atividades de voluntariado desde cedo com as crianças é o próximo passo a ser pensado". Ressalta ainda que "apenas estamos começando a colher os frutos das sementes que foram plantadas nesse tempo do projeto e, se essas atividades forem feitas com as crianças menores, a chance de obtermos melhorias na formação cidadã das crianças envolvidas são muito maiores".
É por conta de projetos como este que devemos lembrar a importância do trabalho voluntário quando se busca a inclusão social, que tem como conseqüência a igualdade e a melhoria de vida em nossa sociedade. E foi nesse sentido o que parecia uma simples tarefa escolar de construção de sites, acabou se transformando em exercício de solidariedade e cidadania, mostrando que não é apenas por meio da doação de bens materiais que se transforma a realidade do outro. Além disso, fazer parte do projeto tornou possível perceber que aquilo que parece pequeno para alguns, pode ter um grande valor para quem está bem próximo. Da mesma forma, a percepção de que as diferenças que se mostram através da aparência, do meio onde se vive, entre outros, dissolvem-se à medida que o olhar se volta para o ser.
Texto escrito por Ana Righi Cenci, aluna do 1º ano do Ensino Médio 2005 - Texto premiado com 1º Lugar no Ensino Médio no Prêmio Jornalista do Futuro, promovido pelo Jornal da Manhã